Faixa da Morte atrai companhias de tecnologia para Berlim

Edifício onde soldados da Alemanha Oriental vigiavam e atiravam em desertores está ganhando vida nova como centro de tecnologia

Por Dalia Fahmy

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14 fev 2014, 21h38

Simon Schaefer, um investidor, usa um computador em um escritório de uma propriedade comercial entre o Muro de Berlim, na Alemanha (Krisztian Bocsi/Bloomberg/)

Berlim – Os desenvolvedores de Berlim seduziram compradores e inquilinos contando a história da cidade, da época da República de Weimar até o Muro de Berlim. Agora, um edifício onde soldados da Alemanha Oriental vigiavam e atiravam em desertores está ganhando vida nova como centro de tecnologia.

A SoundCloud, um site de compartilhamento de música, vai se mudar para um edifício da rua Bernarder Strasse, cujas janelas foram fechadas com tijolos criando a primeira versão da barreira que separou o leste e o oeste de Berlim. É uma de várias propriedades da rua que o investidor Simon Schäfer está transformando em um centro de tecnologia, conhecido como A Fábrica (The Factory) para inquilinos como a fabricante de navegadores Mozilla Corp. e os desenvolvedores de aplicativos 6 Wunderkinder GmbH.

“É uma maneira interessante de construir sobre a história”, disse Schäfer, que tinha 12 anos quando o Muro caiu em 1989. “Você vê a arquitetura da Alemanha Oriental, você vê o bairro do século 19, e aí você vê algo moderno que nós colocamos sobre tudo isso. Essa é a essência de Berlim”.

Schäfer pertence a uma segunda geração de desenvolvedores encorajados por uma economia próspera e pelo crescimento da riqueza, que estão tentando lucrar com as ruínas da última guerra e com os lotes abandonados no distrito central de Berlim, Mitte. A construção do complexo, erguido em 1890 como uma fábrica de cerveja e depois usado como bunker nazista, está programada para ficar pronta no final do ano. Alguns inquilinos, incluindo os criadores da Wunderkind, já se mudaram.

Distrito em reforma

Em outra parte de Mitte, os investidores estão fazendo ofertas pelo prédio da Tacheles, uma antiga loja de departamentos em ruínas, que foi ocupada por moradores ilegais até o ano passado. Uma agência de correios abandonada na área se transformará em apartamentos de luxo.

“Em Berlim há muitas propriedades abandonadas para as quais não estão encontrando muito uso, mas em Mitte já não tem muitas”, disse Alexander Kropf, diretor de investimentos em escritórios da Jones Lang LaSalle Inc. em Berlim. “A Fábrica chegou no momento certo”.

Duas janelas do escritório da SoundCloud eram pontos de vigilância usados pelos soldados que patrulhavam uma parte do Muro onde nove alemães orientais morreram tentando fugir.

Camadas de história

“Existem diversas camadas de história na cidade e você pode sentir isso todos os dias”, disse um dos fundadores da SoundCloud, Eric Wahlforss. “É incrível fazer parte da construção da próxima camada”.

A Bernauer Strasse é uma rua única na história de Berlim porque é o único trecho onde tantos prédios, 40, faziam parte da fronteira, disse Maria Nooke, vice-diretora da Fundação do Muro de Berlim. Na noite de 13 de agosto de 1961, soldados colocaram arame farpado ao longo do coração desse bairro residencial de classe média. No começo, as casas que ficavam no caminho fizeram parte do Muro e depois a maioria delas foi demolida.

A Fábrica faz parte do “segundo muro”, que ficava atrás da barreira primária de frente para o oeste, e sobreviveu porque era usada pela polícia de fronteira. Entre os dois muros ficava a chamada “Faixa da Morte”, onde qualquer civil detectado era morto a tiros.

Uma transformação com contrastes tão fortes como a da Fábrica não é rara em Berlim. O maior shopping da Alemanha vai abrir no segundo trimestre no lugar onde ficava uma antiga loja judaica de departamentos que foi confiscada pelos nazistas. A Soho House, a operadora de clubes e hotéis, abriu sua única locação na Alemanha em um prédio antigamente utilizado como sede do Partido Comunista.

“Existe uma necessidade de enfrentar a história e uma das formas mais positivas de lidar com isso é criar algo positivo e tolerante e com visão de futuro”, disse Schäfer. “O fato de ver os americanos que vêm aqui perplexos com o contexto histórico contribui para o envolvimento emocional que temos com Berlim”.